Mais de 30% das crianças em idade escolar têm problemas de visão não diagnosticados, segundo a American Optometric Association.
É um número alto, mas não surpreendente.
Na prática, muitos pais só percebem que algo está errado quando a escola começa a reclamar: notas em queda, dificuldade de concentração, leitura lenta.
O diagnóstico, porém, não está no comportamento, está nos olhos.
A pergunta é: em que momento levar seu filho ao oftalmologista?
A resposta passa por cada fase da infância, desde os primeiros meses de vida até a adolescência.
Primeira infância (0 a 2 anos)
Mesmo os bebês precisam de acompanhamento oftalmológico. É nessa fase que podem ser identificados problemas como estrabismo, obstrução do canal lacrimal ou alterações congênitas.
Um exame simples, feito já nas consultas de rotina, pode fazer toda a diferença: o teste do reflexo vermelho. Ele serve para detectar catarata congênita e até sinais iniciais de doenças mais graves. Outro ponto de atenção é a pupila branca em fotos com flash (leucocoria), que pode indicar alterações sérias e deve ser investigada imediatamente.
📌 Sinais de alerta nessa fase:
- Falta de contato visual;
- Olhos que não se movimentam juntos;
- Lacrimejamento constante;
- Pupila esbranquiçada em fotos com flash.
Pré-escola (3 a 5 anos)
Com o início da alfabetização, a visão passa a ter papel ainda mais central. Crianças que apresentam dificuldades para reconhecer letras, desenhar ou acompanhar histórias podem estar lidando com problemas visuais, não de aprendizado.
Um estudo do Instituto Santos Dumont mostra que dificuldades escolares podem estar diretamente ligadas a alterações visuais não diagnosticadas. Muitas vezes, o que parece preguiça ou desatenção é apenas uma questão de enxergar mal.
Aqui vale destacar um ponto técnico importante: em crianças dessa idade, quando é preciso medir o grau, o exame deve ser feito com cicloplegia (um colírio que relaxa o foco). Sem ele, a criança pode “compensar” e o problema passa despercebido.
📌 Sinais de alerta nessa fase:
- Aproximar demais o rosto de livros ou telas;
- Tropeçar com frequência;
- Evitar atividades que exigem visão de perto ou de longe.
Idade escolar (6 a 12 anos)
É nesse período que os problemas visuais mais aparecem. Estima-se que 1 em cada 4 crianças nessa idade precise de correção visual.
A miopia precoce, frequentemente associada ao uso excessivo de telas, é hoje uma das maiores preocupações. Aqui, a ciência traz duas informações valiosas:
- Mais tempo ao ar livre ajuda. Um ensaio clínico na China mostrou que acrescentar 40 minutos de atividades externas por dia reduziu a incidência de miopia nos três anos seguintes.
- Telas têm efeito cumulativo. Uma meta-análise de 45 estudos com mais de 335 mil pessoas mostrou que o risco de desenvolver miopia sobe bastante entre 1 e 4 horas diárias de tela e continua crescendo de forma mais lenta a partir daí.
📌 Sinais de alerta nessa fase:
- Dor de cabeça recorrente;
- Queixas de visão borrada;
- Leitura lenta ou com saltos de palavras;
- Queda no desempenho escolar.
Adolescência (13 a 18 anos)
A visão continua em desenvolvimento até a vida adulta, e os hábitos dessa fase podem deixar marcas duradouras.
Um ponto pouco comentado: o piscar diminui pela metade quando se usa o celular ou videogame. Isso aumenta o risco de olho seco e fadiga ocular, cada vez mais comuns em adolescentes.
Além disso, é nesse período que muitos jovens começam a dirigir, e a progressão da miopia precisa ser acompanhada de perto para garantir segurança e conforto visual.
📌 Sinais de alerta nessa fase:
- Visão turva ao longe;
- Cansaço ocular durante os estudos;
- Dificuldade em esportes e atividades ao ar livre;
- Ardor e ressecamento após muito tempo em frente às telas.
Cada fase pede um tipo de atenção
A criança não sabe explicar que enxerga mal. Para ela, o mundo sempre foi assim.
Por isso, a melhor resposta para a pergunta “quando levar meu filho ao oftalmologista?” é simples: em cada fase da infância e adolescência. Mesmo sem queixas aparentes, avaliações preventivas podem evitar anos de dificuldades silenciosas.
A infância passa rápido demais para ser vista embaçada.
E o olhar atento dos pais pode ser a diferença entre uma criança distraída e uma criança realmente compreendida.
Referências bibliográficas
- American Optometric Association. AOA urges early eye exams to curb learning barriers. Disponível em: https://www.aoa.org/newsroom/aoa-urges-early-eye-exams-to-curb-learning-barriers
- Instituto Santos Dumont. Problemas na visão podem atrapalhar aprendizado de crianças e adolescentes. Disponível em: https://institutosantosdumont.org.br/problemas-na-visao-podem-atrapalhar-aprendizado-de-criancas-e-adolescentes/.
- Wu P, Tsai C, Wu H et al. Outdoor activity during class recess reduces myopia onset and progression in school children. Ophthalmology. 2013;120(5):1080-1085. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23462271
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